Boca de Ouro foi parido num reservado de gafieira e seu primeiro berço foi uma pia de banheiro onde a mãe o deixou, sob a torneira aberta, num batismo cruel e pagão. O menino cresce e se torna bicheiro temido e respeitado – uma figura quase mitológica na comunidade onde vive. Boca mandara arrancar todos os dentes da boca e implantou dentes de ouro. Ele acreditava que seria enterrado em um caixão todo de ouro. Diziam que ficava com as mulheres de homens casados e derretia suas alianças para fazer o caixão. Poderoso e carismático, mantinha o autocontrole desde que não falassem de sua mãe e de como nasceu numa pia de gafieira. O personagem é descrito através de três relatos diferentes, depois de sua morte. Fascinado com a história do contraventor, o jornalista Caveirinha procura uma ex-amante do criminoso, D. Guigui para colher material para uma matéria. Os relatos dela refletem seu estado emocional. No primeiro momento, sem saber que Boca de Ouro está morto, ela o pinta como um homem cruel e insensível, capaz de matar um pobre diabo, inofensivo e covarde, Leleco, para ter a sua mulher Celeste fiel. Ao saber da morte do ex-amante, ela chora e passa a elogiá-lo. Representa-o como um homem rigoroso que mata, mas não sem motivo, ao mesmo tempo em que denigre seu atual marido. Conta a mesma história, mas, desta vez, revela uma Celeste nada fiel e um Leleco não tão inofensivo. A forma elogiosa como passa a tratar o Boca de Ouro irrita o marido, que faz as malas e decide deixar a casa. Com a interferência do repórter Caveirinha, que se sente responsável pela separação, os dois se reconciliam. D. Guigui conta, então, uma terceira versão da mesma história sobre Boca de Ouro, na qual se destaca não só o seu poder e crueldade, mas também suas inseguranças.

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Em Cartaz