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Crítica “A Serpente” por Vinicio Angelici da Revista Stravaganza

A Serpente

No centenário de nascimento de Nelson Rodrigues (1912-1980), a encenação do grupo Gattu vem engrossar o cordão de montagens de textos do maior dramaturgo brasileiro, que também tem sido homenageado por meio de exposições em torno de suas obras. Trata-se da quarta peça do escritor levada ao palco pela inspirada companhia, até o ano passado sediada em uma universidade paulistana. Com uma década de estrada, a trupe tem se dedicado ultimamente à pesquisa sobre o universo rodriguiano, buscando ainda estabelecer diálogo criativo com outras linguagens, como a dança, o circo e as artes plásticas – a dedicada turma encenou deleViúva, porém honesta (2007), Dorotéia (2008) e Boca de Ouro  (2010). Escrita em 1978, esta última peça do autor é um primor de síntese e as cenas se desenvolvem em velocidade impressionante. Apesar de ter sido classificada pelo crítico Sábato Magaldi como tragédia carioca, ela apresenta características míticas e psicológicas e, na versão do Gattu, flerta também com o realismo fantástico. Não há tramas paralelas e o enredo envolve as irmãs Guida e Lígia, que se casaram no mesmo dia e dividem o mesmo apartamento com seus respectivos maridos, Paulo e Décio. Aos poucos, a relação de intimidade e cumplicidade entre elas vai deslizando para o ciúme, raiva, sentimento de abandono e loucura. Uma das qualidades da obra, aliás, é justamente deixar visível a sua estrutura de construção, o que resulta numa dramaturgia seca, direta e contagiante.
Neste espetáculo, com a mesma pegada dos trabalhos anteriores, a cenografia simples resume-se a uma cama, um parapeito, um gira-gira de parque de diversões e duas escadas, manipulados freneticamente pelos atores, criando os ambientes necessários ao desenvolvimento da história. A iluminação, que recorre a vários tons de cores, aliada à bela trilha sonora, mix de composições de Erik Satie, Gabriel Fauré e Claude Debussy, também contribuem para criar a atmosfera de tensão sexual e demarcar a passagem do tempo. Como a ação é conduzida por poucos personagens, é fundamental que o elenco seja afinado para instaurar a dinâmica necessária e todos cumprem à risca a missão. A direção de Eloísa Vitz articula com habilidade os elementos e imprime agilidade e ritmo corretos à encenação, evitando pesar a mão nos ingredientes trágicos. Ela também está em cena, em performance potente, na pele da dadivosa Guida que, ciente do drama de Lígia, oferece o marido à irmã para que passem uma noite juntos, o que vai romper o pacto de normalidade e desembocar na tragédia final. Cabe à Daniela Rocha Rosa, no papel da beneficiária dessa generosidade, a difícil tarefa de prospectar as nuances emocionais da mulher frustrada e infeliz que, virgem mesmo após o casamento, se transfigura depois de experimentar o ato sexual com o inesperado amante. A atriz se desvencilha satisfatoriamente da incumbência. Elam Lima (Paulo) consegue desempenhar com determinação o papel do marido de Guida, arremessado num carrossel de desejo e sedução. Diogo Pasquim injeta veracidade ao aparentemente tímido e falsamente impotente Décio, o homem com dificuldades para transar com a mulher, mas que se revela um fauno ao se envolver com a doméstica da casa, vivida por Laura Vidotto. Em que pese não ter o físico adequado para o personagem, a atriz despeja sensualidade ao incorporar esta figura que personifica o objeto sexual. Montagem inventiva, pulsante e elaborada, só na aparência convencional, que mereceria atrair um público maior do que aquele que tem acorrido ao teatro.
(Vinicio Angelici – viniange@ig.com.br)                                                                           
(Foto Lenise Pinheiro)
 
Avaliação: Bom
 
A Serpente
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Eloísa Vitz
Elenco: Eloísa Vitz, Daniela Rocha, Elam Lima, Diogo Pasquim e Laura Vidotto
Estreou: 05/11/2001
Casa e Teatro Grupo Gattu (Rua dos Ingleses, 182, Bela Vista. Fone: 3791-2023). Segunda e sábado, 21h; domingo, 20h. Ingresso: R$ 40. Até 29 de outubro.

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