Esse Tolentino do TAPA e suas crias incansáveis

Antes de ocupar-nos com as montagens de Doroteia , pelo Grupo Gattu. e deO Livro dos Monstros Guardados, pelo Núcleo Experimental, vale lembrar o quanto o teatro paulista deve, qualitativamente, ao diretor (carioca, pois é!) Eduardo Tolentino de Araújo, desde quando o Grupo TAPA (carioca, pois é!) por aqui aportou, sediando-se no Teatro Aliança Francesa.
Foram anos e anos de sucessivas montagens de grandes autores, nossos ou estrangeiros, obedecendo a um padrão estético rigoroso, que une a preocupação, digamos, apolínia do uso da cena, com decidido comprometimento social-político.
Se boa parcela do público só tardiamente descobriu o TAPA, só agora lotando as platéias de qualquer canto da cidade, nós, da crítica, sempre estivemos atentos em reconhecer-lhe o mérito, cobrindo-o, em sua já longa trajetória, com incontáveis  troféus.
A convivência de muitos jovens atores com os métodos conceptivos de Tolentino criou uma nova geração de diretores, conscientes, todos, da total entrega dos seus talentos para atingir a excelência do resultado. Basta lembrar os vigorosos espetáculos engendrados por André Garolli, Denise Weinberg e Brian Penido Ross, em diferentes grupos, aos quais juntam-se os nomes de Zé Henrique de Paula e Eloísa Vitz merecendo a atenção de todos, crítica e público.
O ZÉ HENRIQUE DOS MONSTROS
Não foi necessária nem meia dúzia de montagens (R&J,CândidaSenhora dos AfogadosAs Troianas-Vozes da Guerra) para se perceber que o teatro paulista ganhou um encenador a caminho da envergadura dos seus mestres (Tolentino e Antunes Filho).
Em sua mais recente estréia, O Livro dos Monstros Guardados, em temporada no Teatro Imprensa, a criatividade do diretor inunda o palco com sucessivas e impactantes imagens a serviço do grotesco do ser humano, a partir do cenário (dele próprio) composto de simétricos nichos-cloacas, de onde bizarros personagens irão monologar, abusando da escatologia e de estéril niilismo existencial, tão ao gosto de quadrinistas e dos autores do teatro alternativo que se faz ultimamente.
Zé Henrique consegue, com o auxilio de um afinado elenco (com Otávio Martins e Sandra Corveloni à frente) dar a impressão de que o texto é menos vazio do que realmente é. A trilha de Fernanda Maia, persegue a mesma meta, logrando bons climas musicais.Outro grande trunfo do espetáculo é a narração em off de Guilherme Sant’Ana, elegante e solene.
ELOISA VITZ, ‘COMADRE’ DE NELSON RODRIGUES
Já dissemos, em outra ocasião que Antunes Filho mantém estreito compadrismo com o pensamento de Nelson Rodrigues, tão viscerais foram todas as encenações de Antunes baseadas no nosso melhor autor.O que marca especialmente esse parentesco intelectual talvez seja o humor, que está o tempo todo subjacente nos diálogos lapidares presentes, principalmente, nos textos urbanos de Nelson, tão agudamente captado pelo festejado encenador.
Com Eloísa Vitz, egressa, como dissemos alguns parágrafos atrás, do Grupo TAPA, estamos certamente à frente de uma “comadre” do Nelson das peças mais expressionistas e/ou surrealistas, pela forma inteligente com que traduz em cena os pesadelos psicanalíticos desta Doroteia, assim como os arrebatamentos deliciosamente amorais de Viúva, Porém Honesta, ambos os textos auto-definidos como “farsa irresponsável”, por ela montados.
No comando do Grupo Gattu (sediado atualmente no simpático teatrinho da Uniban da Avenida Rudge) desde a fundação em 2000, Eloísa se exercitou na direção com obras de Artur Azevedo, Jorge Andrade e Gil Vicente, até o encontro com o humor personalíssimo de Nelson Rodrigues.
Povoando o claustrofóbico espaço de mulheres condenadas, através gerações, a sentir a “náusea” castradora do desejo sexual, a diretora se utiliza de figuras masculinas (ausentes no texto), silenciosas e carregadas de sensualidade viril, que surgem de todos os desvãos do palco, misturando-se sinuosamente com as mulheres dessa trama de carregadas tintas expressionistas.
O cuidado da ambientação cênica, que por vezes invade a platéia; os figurinos, que moldam os impulsos das personagens; o uso de grande impacto da luz e dos efeitos especiais; as atuações tecnicamente bem conduzidas (não há que se falar aqui em psicologismo) tanto vocal quanto na expressão corporal( tão apropriadamente  exercitada pelo elenco masculino) fazem desta “Dorotéia” um nervoso mergulho nos mistérios da sexualidade feminina.
Doroteia/ Teatro Gil Vicente da UNIBAN/Av. Rudge, 325, Campos Elísios, próximo ao Viaduto Rio Branco/ telefone 3618-9014/sábados 2lh e domingos 20h/ Ing. R$30,00 e $15,00/ Censura 16 anos/ até 13/12
maio 19, 2015

Crítica “Dorotéia” Afonso Gentil para Aplauso Brasil

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